Entre linhas e sonhos: o legado de mãe e filha na Anefran
Por Elise Bozzetto
Francine Martins e sua mãe, Rejane Martins, carregam no toque das mãos a história de uma vida inteira dedicada à costura, à resiliência e ao sonho de transformar circunstâncias. Ao longo da entrevista, ambas se emocionaram ao recordar as dificuldades do passado e celebrar as conquistas que as trouxeram até aqui. Entrelaçadas pelo fio invisível que une família e trabalho, criaram, primeiro, a Cristallo Jalecos, depois a Cristallo Uniformes, e, hoje, conduzem a Anefran, símbolo de moda essencial, atemporal e elegante para mulheres modernas.
Raízes de coragem em Cruzeiro do Sul
Francine nasceu no interior, em Bonfim, município de Cruzeiro do Sul (RS). Seus primeiros anos se desenrolaram em uma pequena casa de madeira, sem energia elétrica, onde o simples ato de preparar uma refeição exigia criatividade: “A mãe levantava duas carreirinhas de tijolo, colocava uma folha e ali a gente fazia comida”, recorda Francine com a voz embargada. Em meio àquela necessidade, Rejane costurava bombachas, blusas e vestidos num pedal manual, usando apenas a luz de velas para finalizar bordados. Era o ganha-pão e, ao mesmo tempo, um ofício cheio de arte.
“Eu cresci nesse ambiente. A mãe sempre costurando — de dia, cortando tecidos, e de noite, à vela, fazendo os detalhes mais delicados. Eu brincava de escolinha com meu irmão, usando um roupeiro amarelado como lousa. Essa era a nossa vida”, confidencia Francine.
Desde cedo, a menina percebeu que ali havia um talento que merecia outro palco. Aos 12 anos, decidiu que a costura de sua mãe não ficaria confinada à barranca do rio: “Eu pensava assim: ‘A mãe nunca vai ser valorizada nesse interior. Se eu estudar e me formar, posso tirar minha mãe dessa condição’”. Nesse propósito, nasceu o primeiro sonho de Francine: criar uma empresa capaz de gerar não apenas renda, mas também reconhecimento para o trabalho delicado que Rejane realizava.
A costura como legado e objetivo
Rejane herdou a curiosidade de desmontar peças para entender como eram feitas. “Um dia minha mãe pegou uma calça do meu avô, abriu tudo para descobrir como se costurava um gancho. Nunca montou de volta. Meu avô faleceu sem saber onde aquela calça foi parar”, conta Francine. Já aos quinze anos, quando ganhou sua primeira máquina de costura, Rejane passou a confeccionar suas próprias roupas e as de vizinhas, começando a construir um portfólio que, um dia, se transformaria em marca.
“A mãe sempre foi curiosa. Fazia roupas para nós, pegava toalhas para forrar casacos e nos manter aquecidos para ir à escola. Ela costurava qualquer pedaço de tecido que aparecesse, porque era assim que as pessoas sobreviviam ali”, lembra Francine.
Enquanto a menina estudava administração, Rejane continuava a sustentar a família com as encomendas e reformas. Francine, por sua vez, ingressou como assistente administrativa em uma clínica odontológica de Lajeado, onde percebeu uma lacuna: os jalecos disponíveis eram sem graça e padronizados. Foi ali que teve a ideia que mudaria o rumo de suas vidas.
Da clínica ao empreendedorismo: nasce a Cristallo Jalecos
Trabalhando na clínica, Francine tirava medidas dos profissionais e, ao não encontrar jalecos à altura do que considerava elegantes, decidiu desenhar o próprio modelo. Comprava tecido gabardine, desenhava o molde e levava para a mãe confeccionar. “Cheguei a esse ponto: desenhava o jaleco, e ela cortava e costurava. Foi assim que nasceu a Cristallo Jalecos: cristallo, do cristalino, do puro, do limpo — tudo a ver com o branco do jaleco na área da saúde”, conta Francine.
Mas, antes de inaugurar oficialmente a Cristallo Jalecos, a jovem procurou um espaço para trazer a mãe do interior para a cidade. Alugou uma salinha no salão de beleza de sua madrinha, na Cristiano Grun, em Lajeado, e convenceu Rejane a trocar o barro do interior pelo asfalto: “Dizia: ‘Aqui você será valorizada. No interior você faz uma blusa e ganha R$ 10; aqui, na cidade, pagam R$ 30, R$ 40’”. Convenceram Rejane a mudar-se em 2010, carregando apenas a máquina de costura e a esperança.
Nos primeiros meses, Francine, sua sócia Ana e Rejane trabalhavam direto e sozinhas — costuravam, entregavam e vendiam. “Íamos às cinco da manhã para a salinha de 12 metros quadrados, para a minha mãe nos ensinar a costurar, porque não tínhamos dinheiro para contratar ninguém. A Ana fazia o fechamento das peças e eu fazia as bainhas”, lembra Francine.
Cristallo Uniformes: crescer e ampliar horizontes
Em 2012, já com a primeira funcionária, faltou espaço para a uma mesa de corte maior e para acomodar os tecidos e a primeira mudança foi necessária. Uma sala maior na Rua Bento Gonçalves foi locada. Foi quando perceberam que não era mais suficiente confeccionar apenas jalecos; os clientes pediam uniformes completos — camisas, calças, vestidos, além de peças para formandos universitários. Em 2014, passou a se chamar Cristallo Uniformes. Em quatro anos, atenderam cerca de 700 empresas na região, de clientes nacionais a multinacionais como Docile, Florestal Alimentos e New Holland.
Apesar do crescimento, a rentabilidade era pequena, pois a Cristallo Uniformes trabalhava com alto valor agregado, mas margens apertadas — cada personalização exigia horas adicionais de trabalho, compras de tecido e total atenção aos mínimos detalhes. Ao final de 2015, com a necessidade de escalar e garantir fluxo de caixa, Francine propôs: “Precisamos criar uma linha de peças essenciais e vendê-las pela internet. Vemos o sucesso dos infoprodutos, que faturam seis dígitos em poucos dias, por que não tentar com moda?” Apesar do receio de Rejane, que dedicara a vida aos uniformes, o plano avançou.
O salto digital: lançamento da Anafran
Entre o fim de 2015 e o início de 2016, desenvolveram os primeiros modelos de uma marca de moda feminina batizada como Anafran. O evento de lançamento foi em conjunto com uma marca de acessórios, em um showroom improvisado, onde reuniram amigas para conhecerem as peças. Foi também o marco da entrada para o digital, pois toda a divulgação foi feita pelo facebook, com a criação do evento de forma on-line. Foi o pontapé para uma trajetória que, aos poucos, mudaria totalmente o foco do negócio.
A primeira mulher que acreditou na marca e quis transformá-la em parte de sua renda foi Elena, cliente do interior de Cruzeiro do Sul, que vendia sacolas de Anafran com sua bicicleta de casa em casa. Em homenagem a essa mulher empreendedora, Francine criou, mais tarde, a blusa “Elena”. Com Anafran, as vendas começaram a ganhar corpo: peças vendidas porta a porta, eventos chamados de “Anafran Day” que enchiam hotéis com coquetéis e araras cheias de mercadorias. Paralelamente, mantinham a Cristallo Uniformes, numa estratégia de transição gradual.
“De 2016 a 2018, validei o produto ouvindo feedbacks, produzindo mais volume, fechando parcerias com lojas e entendendo que era possível crescer. Em novembro de 2018, demitimos 700 clientes e encerramos a Cristallo Uniformes para dedicar tudo à Anafran”, revela Francine, salientando ao lembrar o quão difícil foi abrir mão de uma base tão sólida.
O seis em sete que mudou destinos
A pandemia de 2020 trouxe ainda mais resiliência: enquanto as lojas físicas fechavam, Francine entendeu que precisava investir no e-commerce. Contrataram duas influenciadoras — uma de São Paulo e outra de Porto Alegre. “Foram quatro stories de 15 segundos. Vendi R$ 16 mil em 60 segundos, sem ter site pronto para processar tudo. Montamos estações de trabalho para responder pelo WhatsApp”, relembra. A fábrica parou para atender aos novos pedidos.
O resultado mostrou que investir no digital era a chave para garantir a sobrevivência — e o crescimento. Foi lançada uma coleção cápsula de oito peças, em colaboração com as duas influenciadoras. Foi o primeiro “seis em sete” da marca. Foram vendidos mais de R$ 220 mil reais em sete dias.
Hoje, o e-commerce representa cerca de 24% do faturamento; o restante vem de lojas parceiras, empresas que compram para uso corporativo e, desde 2025, de representantes comerciais no RS.
Anefran: uma nova etapa com a mesma essência
Em março de 2024, a Anefran deu um passo importante em sua história: inaugurou sua nova fábrica, agora com 604m². Mais do que um novo espaço físico, esse momento simboliza a consolidação de uma trajetória feita de luta, coragem e muitos sonhos costurados com propósito.
No aniversário de 8 anos da marca, em novembro de 2024, um novo capítulo foi escrito: a transição de Anafran para Anefran. A mudança de nome celebra a força das mulheres que constroem essa história e marca a saída de Ana, antiga sócia, em 2023. A partir disso, Francine e Rejane assumiram integralmente a empresa e escolheram um nome que valorizasse ainda mais quem está por trás de cada criação.
“É uma forma de homenagear minha mãe, que lidera o processo produtivo com dedicação e talento. Ela é quem transforma minhas ideias em roupas que abraçam. Das mãos dela nascem as modelagens e as peças iniciais que, com técnica, sensibilidade e humanização, viram criações que as mulheres amam vestir”, conta Francine, com um sorriso cheio de orgulho.
Lições de mãe e filha
Para Francine, empreender vai muito além de vender: é sobre deixar um legado. E, o conselho a mulheres que sonham em empreender resume-se em três pilares que sustentam qualquer jornada empreendedora com alma: resiliência, atitude e propósito claro.
“Empreender só faz sentido quando há um motivo muito forte por trás. Desde criança, meu maior desejo era tirar minha mãe daquela condição. Esse foi o propósito que me moveu — e me fez acreditar que, por meio da roupa, poderíamos conquistar liberdade.”
Hoje, esse propósito transborda: está em cada escolha, em cada peça, em cada pessoa que veste Anefran. “Temos uma equipe que compartilha da mesma essência, trabalhando com leveza e verdade. Porque, no fim, passamos boa parte da vida no trabalho — e precisamos, sim, ser felizes enquanto construímos algo maior.”
Para Rejane, a admiração pela filha traduz-se em orgulho por cada conquista. “A Francine é coerente, sabe o que quer, luta com integridade. Ela mudou minha vida. Trabalhar juntas, depois de tudo que vivemos, só reforça que qualquer dificuldade é pequena perto de onde estivemos. Estamos muito felizes e conseguimos ver o melhor em tudo que fizemos”, declara Rejane, com os olhos marejados.
O fio que ainda se estende
A história da Anefran é, acima de tudo, o entrelaçar de duas mulheres guiadas pelo amor e pela costura. Uma jornada que começou com peças sob medida e tecidos cortados na mesa da cozinha — e que, ponto a ponto, transformou-se em um legado de moda, afeto e realização.
Em um mercado acelerado, Francine e Rejane escolheram mais do que confeccionar roupas: decidiram tecer sonhos reais para mulheres reais. Das antigas máquinas a pedal no interior gaúcho ao e-commerce que cruza fronteiras, cada detalhe carrega um propósito maior — valorizar a vida de quem veste e de quem faz.
Rejane dá forma às ideias de Francine, criando as modelagens e peças-piloto que tantas mulheres amam vestir. Juntas, elas mostram que, quando o talento encontra a coragem, não há tecido que não possa ser transformado em história.
E assim, a Anefran segue costurando seu próprio caminho com propósito, sensibilidade e alma. Um caminho que escolhe ir na contramão do fast fashion — priorizando o tempo, a qualidade e a ética em cada etapa. Produzimos em ritmo consciente, com peças que duram, respeitam quem faz e acompanham a rotina de mulheres reais com leveza, conforto e verdade.