Quando a “baderna” se torna resistência: espetáculo revisita história e provoca o presente
Por Redação LADIES
Fotos: Sergio Silva
Em cartaz em São Paulo, montagem celebra 12 anos e ressignifica o corpo feminino como território político e artístico
Em abril, o Instituto Capobianco recebe o espetáculo BadeRna. Um sobrevoo, do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, uma obra que atravessa tempo, linguagem e memória para questionar normas sociais ainda vigentes. Celebrando 12 anos de trajetória, a montagem retorna ao público em uma nova versão, mais madura, mais política e profundamente conectada às urgências contemporâneas.
Inspirado na vida da bailarina italiana Marietta Baderna (1828–1870), o espetáculo resgata uma figura histórica que ousou desafiar o conservadorismo de sua época. No século XIX, Baderna rompeu com os padrões ao fundir o rigor do balé clássico à ginga do lundu, dança de matriz africana associada à resistência dos povos escravizados. O gesto, inovador e transgressor, não foi compreendido como arte, mas como afronta.
Perseguida e silenciada, a bailarina deixou os palcos. Seus admiradores, conhecidos como “baderneiros”, passaram a ocupar teatros em protesto, gritando “Cadê a Baderna?”. Com o tempo, o sobrenome da artista, antes ligado à beleza e à expressividade, foi ressignificado como sinônimo de desordem. Assim nascia, no português brasileiro, a palavra “baderna”, enquanto a história de Marietta era gradualmente apagada.
É a partir dessa inversão simbólica que o espetáculo constrói sua potência. Concebido e interpretado por Luaa Gabanini e dirigido por Roberta Estrela D’Alva, “BadeRna – Um sobrevoo” propõe uma leitura decolonial dessa trajetória, transformando o ato de “badernar” em gesto político: resistir, confrontar, questionar.
Em cena, poesia, dança, música e palavra se entrelaçam em uma experiência performática que tensiona o presente e amplia as possibilidades de existência. “A nova performance aborda não só o despejo de uma companhia de teatro, mas também a invisibilidade de corpos marginalizados e o desprezo pela história”, afirma a diretora.
A temporada integra a residência artística do grupo no Instituto Capobianco, espaço que há mais de duas décadas se consolida como um polo de criação, experimentação e formação nas artes. Durante o mês de abril, além das apresentações, o público também pode participar de uma programação paralela gratuita, que inclui oficina, roda de conversa, mostra de filmes e uma edição do ZAP! O primeiro slam de poesia do Brasil.
Com 26 anos de trajetória, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos é reconhecido por criar a linguagem do teatro hip-hop, estabelecendo pontes entre arte, política e autorrepresentação. Em “BadeRna – Um sobrevoo”, essa pesquisa se reafirma com força, transformando memória em presença e história em urgência.
Mais do que revisitar o passado, o espetáculo propõe uma pergunta essencial: quem decide o que é desordem, e para quem?